Sexismo alvinegro

Por Débora Anício

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A polêmica da semana – ou pelo menos a polêmica mineira – é a apresentação do novo uniforme oficial do Atlético-MG, realizada na noite desta segunda-feira (15) em Belo Horizonte. Mas o que há de polêmico num evento feito por um time para divulgar a roupa que vai usar durante o ano (e que vai render milhões para esse mesmo clube)? A polêmica está no fato das modelos (mulheres) desfilarem de biquíni. Centenas de pessoas reclamaram de machismo nas redes sociais, e outras centenas criticaram quem viu sexismo na apresentação.

Houve sexismo e machismo? Para mim sim. Mas antes de alguém me mandar lavar louça ou emagrecer (pois essas são as sugestões favoritas de quem não sabe argumentar, além do famoso “vá caçar um macho”), vamos pensar um pouquinho… Por que as mulheres precisam estar de biquíni? Por que as mulheres que usaram a camisa do Galo estavam com apenas uma calcinha ou com um minúsculo shortinho? Esses biquínis estão à venda nas lojas do Galo? É permitido entrar usando apenas esses biquínis ou shortinhos no Mineirão ou Independência? A bandeira do Galo serve apenas para tapar as curvas de uma mulher de biquíni? Por que os modelos masculinos não desfilaram sem os longos calções para chamar a atenção do público para a camisa? Por que os homens não desfilaram sem camisa para o público poder se atentar a todos os detalhes do calção? Por que EM MOMENTO ALGUM nenhum homem mostra pernas, barriga, bunda e peito? Por que o máximo de pele que conseguimos ver de Robinho (o astro atleticano do momento e principal atração do evento) vem de seu rosto, pescoço, antebraço e flashes de seus joelhos?

Alguns questionaram que essa prática é comum nos clubes europeus, como se o hábito de uns justificasse o sexismo de outros. Alguns apontaram que se trata de um evento de moda e que isso é comum no mundo fashion. Ok, até concordo com a segunda argumentação; mas em partes. Na moda, as tops precisam ser super magras para servir de cabides para as roupas e para os estilistas não terem que se preocupar com as medidas da mulher para criar um modelo, apenas precisam deixar sua imaginação rolar sobre um papel ou máquina de costura (quem vai vestir que se vire para entrar no padrão absurdo estipulado por essa indústria). Apesar de discordar, ainda sim é cabível a exibição de algumas partes do corpo feminino (e também masculino, vamos lembrar) nos desfiles de moda porque, afinal, faz parte do show. Num desfile, além das roupas, está sendo exibida uma proposta, uma ideia, uma forma inovadora de enxergar a moda.

Mas… Qual a justificativa para esse excesso de pele feminina à mostra na divulgação do uniforme oficial de um clube de futebol? Em momento algum foi destacar o uniforme, afinal não me lembro de ver o escudo do Atlético no biquíni e muito menos imagino que esse biquíni vai desfilar pelos gramados do mundo do mundo ♫ pra vencer ♫.

Não houve “seminudez” artística no evento atleticano, mas apenas uma mentalidade retrógrada e machista de que apenas homens consomem o futebol. Apenas homens compram camisas, shorts e afins e que aquele é um evento só para eles. Ora, se o evento é só para machos, nada mais natural que existam fêmeas com o corpo à mostra para atrair o sexo oposto.

O biquíni não é o problema, mas como ele é usado. Exibir o corpo de uma mulher não é machismo ou sexismo, dependendo do objetivo com que isso é feito. O uso das mulheres seminuas no desfile não teve nada a ver com exibir o novo uniforme, em destacar o novo design ou em salientar a beleza da bandeira; o corpo das modelos femininas esteve ali apenas para atrair os homens. E é no mínimo triste ver meu time do coração fazer isso. E triste também imaginar que a direção ou marketing do clube não percebe o potencial de compra das mulheres. Se a desculpa esfarrapada é de que os belos corpos femininos estão ali porque fazem parte do show de moda atleticano, que colocassem os belos corpos masculinos à mostra também – afinal as mulheres são consumidoras, e se querem atrair uma parte do público para as lojas com o chamariz do corpo, que se esforcem para atrair as consumidoras também.

 

*Débora Anício

Jornalista, mineira, cinéfila, atleticana, beatlemaníaca, legionária, machadiana e apaixonada por Gabriel García Márquez

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Sobre palpitandoocotidiano

Sou jornalista, com pós em empreendedorismo e marketing.
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