O dia em que me perdi

Por Rodolfo Rodrigues

Marcelo na pedra. Quando ele voltou a "maré" tava mais alta.

Marcelo na pedra. Quando ele voltou a “maré” tava mais alta.

Novembro de 2011, véspera de feriado da Proclamação da República, estava com a família da minha namorada, Cacau, no condomínio onde seus pais possuem uma casa de campo, perto da Serra da Moeda, em Itabirito/MG. Era domingo cedo e saí com o sobrinho e o cunhado dela para um tracking, em uma trilha do local.

Andamos por horas (mais de três, com certeza), e quem me conhece sabe que o meu joelho não é lá dos melhores. Por isso resolvi avisar ao Marcelo e ao Francisco que eles poderiam continuar, que eu voltaria. Afirmei que sabia o caminho de volta, apesar de nunca ter ido nessa trilha, ao contrário dos dois que conheciam o local.

Despedi-me e segui meu retorno. Em certo momento escorreguei no lodo (havia chovido bem durante a tarde) de uma pedra no riacho e bati com a cabeça em uma pedra grande. Fiquei meio tonto, mas comecei a fazer um exercício de lembrar nomes e números de telefone para saber se eu estava bem. Coloquei a mão na testa e percebi que estava bem inchado.

Continuei a caminhar pelo riacho, até achar o local de subir o barranco e pegar a trilha para o condomínio, só que não achava o lugar. O nervosismo começou a tomar conta, as horas se passando e eu apenas com uma garrafa de água, que enchia o tempo todo para beber. Achei uma pedra grande no meio do riacho e decidi que se escurecesse, seria ali que eu passaria a noite. Dito e feito, quando a luz do sol sumiu voltei para “minha cama” e fiquei lá deitado, olhando para as estrelas.  Antes peguei o cajado que me acompanhava e “cutuquei” por todo lado para ver se havia cobra ou outro bicho, mas graças a Deus não tinha nada.

O cansaço e a fome eram gigantes, nem o medo me atrapalhou dormir, só acordava de vez em quando a noite para virar de lado, já que a pedra machucava as costelas. Antes de dormir, ficava pensando na Cacau e na sua família. Apesar de tudo, eu sabia que estava bem, mas eles não sabiam nem se eu estava vivo, não é nenhum exagero falar que eu poderia ter morrido ali. Meus pais, pelo menos, não estavam aflitos, já que não faziam ideia do que estava acontecendo.

Quando amanheceu (não sei a hora, estava sem relógio), comecei a andar, coloquei na cabeça que só pararia quando achasse a saída. Mesmo sem forças eu teria que continuar, pensar que voltei porque não estava aguentando mais andar e no final das contas andei mais que todo mundo. Caminhei enlouquecidamente subindo o curso do riacho, até que vi uma trilha lateral e resolvi mudar meu rumo. Foi quando escutei o barulho de helicóptero. Não tinha como eu sinalizar, mas entre as árvores vi que tinha detalhes em vermelho, então sabia que os Bombeiros estavam procurando por mim.

Comecei alternar passos longos com um princípio de corrida, já que por ter muitas pedras não dava para correr de verdade.  Tempo depois vi um barranco com uma clareira, escalei esse barranco e vi uma trilha. Fiquei mais aliviado, quando alguns passos depois avistei uma cerca de arame farpado, com certeza seria de alguma residência. Na sequência vi a primeira casa, sabia que estava no condomínio.

A primeira rua era uma subida, cansado, com fome e escorando no cajado subi, até que um dos funcionários do condomínio parou de moto e perguntou se eu era o rapaz que havia sumido, respondi que sim, ele desceu, me mandou sentar e ligou para os bombeiros que estavam rodando à minha procura. O caminhão do Corpo de Bombeiros me pegou e me levou até a casa da família da Cacau.

Lá foi uma emoção sem fim, mistura de alegria, alívio e uma porção de sentimentos que não dá pra explicar. A primeira pessoa que veio me abraçar assim que desci do caminhão foi a Cacau. Eu estava debilitado e com algumas escoriações, além, é claro, de dores musculares por todo corpo, havia saído no domingo pela manhã e retornei na segunda, próximo ao horário do almoço.

Assim que sai do banho meu celular toca, era o Juliano, um colega de Ipatinga querendo saber o que aconteceu comigo, já que viu na internet que fiquei perdido na mata e fui encontrado desmaiado. Contei que estava tudo bem e na hora liguei para meus pais, queria contar a versão oficial, antes que alguma mentira chegasse aos seus ouvidos. Minha sogra e minha namorada ainda não haviam contado nada para eles (ainda bem), elas estavam esperando as buscas da manhã da segunda. Contei o que consegui falar na hora e minha sogra conversou com minha mãe depois.

Deitado na cama, comecei ouvir o relato de todos. Me disseram que assim que Marcelo e Chico chegaram em casa e viram que eu não havia voltado eles retornaram pra me procurar.  Entraram na água, mergulharam em poços e nada, pelo que entendi, enquanto eu ia para um lado eles iam para outro. Os Bombeiros não fazem buscas a noite, por isso voltaram na segunda cedo.Descobri que saí pelo lado contrário que entrei na trilha, atravessei tudo de ponta a ponta.

Uma repórter me ligou para saber a história, foi a única que apurou realmente, não lembro seu nome, mas era do Estado de Minas. Outros veículos publicaram mentiras, disseram que fui encontrado desmaiado com metade do corpo na água e metade em uma pedra, outros que eu estava internado, mas já não corria mais risco de morte e por aí vai. Um inventa e os outros reproduzem.

Depois descobri que um funcionário do condomínio, querendo se passar por herói, inventou que me salvou e me resgatou desmaiado. Muita gente sabe dessa história, mas nunca escrevi assim com detalhes, claro que faltaram alguns, principalmente as histórias que fiquei sabendo depois das pessoas me procurando desesperadas, mas se for escrever tudo, este texto vira um livro. Pode parecer loucura, mas esse tempo todo depois ainda lembro bem. Difícil esquecer momentos assim.

Ainda não voltei ao local, não por medo, falta de oportunidade mesmo, apesar de ter sido proibido pela Cacau. O Marcelo e o Francisco já voltaram, inclusive tiraram foto na minha “cama”. Um dia, quem sabe, retornarei, não para dormir, mas para ver novamente a pedra que me acolheu tão bem. Só para finalizar, dois dias depois aconteceu uma forte chuva de granizo no local. Imagina se eu tivesse perdido na mata com pedras de gelo caindo do céu?

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Sobre palpitandoocotidiano

Sou jornalista, com pós em empreendedorismo e marketing.
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