Terror no Vale: descanse em paz ‘loko’

Por Rodolfo Rodrigues

carvalho

Menos de 40 dias após a morte do jornalista Rodrigo Neto, o Vale do Aço se deparou com mais um assassinato de um membro da imprensa. Desta vez, a vítima foi o fotógrafo Wagney Carvalho.

Louco, ou ‘loko’, como ele mesmo se referia, assim era essa “peça rara”. Trabalhei com Carvalho durante um bom tempo, no jornal Vale do Aço, onde ele era freelancer.

O forte de Carvalho era a editoria de polícia. Mas por várias vezes fez fotos para o esporte, onde trabalhamos juntos, cobrindo o extinto Ipatinga Futebol Clube, a equipe feminina de futebol do Iguaçu e o futebol amador.

Ele era companheiro de Rodrigo Neto antes de trabalharem no mesmo jornal. Apesar de ninguém saber o motivo da execução, é fácil imaginar que os dois crimes têm uma ligação.

Alguém quer calar a imprensa do Vale do Aço, e na medida em que o tempo vai passando e ninguém é preso, infelizmente estão conseguindo. A região virou o velho oeste, um lugar sem lei. Ou seria um cangaço?

O Brasil está entre os países em que mais se mata jornalista e o Vale do Aço está fazendo esta triste estatística aumentar.

A última vez que encontrei com Carvalho foi no enterro de Rodrigo. Sua voz dizendo “e aí amigo!” estará sempre presente em minha memória.

Audacioso, destemido e por muitas vezes abusado demais, Carvalho também era muito emotivo, principalmente quando se deparava com crimes contra crianças.

Adorava elogiar os companheiros e principalmente receber elogios por suas fotografias. Quando saía uma imagem dele na capa do jornal, Carvalho percorria as bancas para saber como andava as vendas. Este era o “loko”, que tinha muito orgulho do seu trabalho e o fazia com amor.

Gabava-se de dormir pouco, falava que a noite é que acontecem as coisas e que sempre tinha que estar em alerta para conseguir as melhores imagens. Perguntando sobre qual a melhor foto, ele dizia: “É aquela que acontece no segundo exato”.

Gostava de falar frases motivacionais e exaltar o trabalho em grupo. Certa vez a equipe do jornal estava desanimada trabalhando em um feriado, quando ele solta a seguinte frase: “Verá que um filho seu não foge à luta”. Todo mundo começou a rir e a animação voltou à redação.

O que nos resta é acreditar que estas mortes serão solucionadas e que os culpados serão punidos. Descanse em paz, Carvalho.

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Sobre palpitandoocotidiano

Sou jornalista, com pós em empreendedorismo e marketing.
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3 respostas para Terror no Vale: descanse em paz ‘loko’

  1. Grasiela disse:

    A sujeira aqui está tanto que estão apagando arquivo vivo às claras com a certeza da impunidade… Deus conforte os familiares e amigos.

  2. Juliany disse:

    Belas palavras Rodolfo. Sentiremos saudades desse loko.

  3. Francini Macedo disse:

    Gente, sem palavras… Carvalho me deu uma super força quando comecei no Jornal Vale do Aço e simplesmente não conhecia ninguém. Ele foi me apresentado a cada um, com toda paciência, de Polícia, Esportes, Cidades… e um prazer inesgotável de cobrir cada furo, porque pra ele só o furo de notícias interessava. E ainda avisava “Não vai levar bola nas costas, hein!”. Triste e inacreditável essa notícia. Agora “velho oeste” se aplica bem ao Vale do Aço.

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