Morremos não. Despertamos

*Por Thaís Dutra

rodrigo neto

E somente hoje, três dias após o assassinato do colega Rodrigo Neto – companheiro de lutas no campo do Jornalismo e do Direito – consigo assentar melhor as ideias e refletir com mais serenidade sobre sua arrebatadora travessia pela ponte da vida – que a todos ainda muito incomoda.

Quisera eu, quando soube da notícia, também parafrasear Fabrício Carpinejar, afirmando que morri, na madrugada de sábado (08/03), em Ipatinga. Afinal, qual jornalista não morreu? Morri porque também mergulhei na profissão movida por um sentimento intenso, e por muitos incompreendido, de ser útil à sociedade, mesmo conhecendo as inúmeras dificuldades da carreira; morri porque por diversas vezes subtraí horas do convívio familiar para terminar reportagens que, sabia no íntimo, não podiam esperar; morri porque por várias vezes também me indignei com o descaso de algumas autoridades em relação a problemas tão graves de nossa sociedade, sentindo o coração palpitar na hora de transformar em texto a apuração; morri porque descobri cedo as fraquezas da nossa sociedade e de nossas instituições, reflexo inconteste da moralidade ainda pouco avançada e vacilante do ser humano.

Ainda no enterro de Rodrigo, em meio aos colegas de imprensa, familiares, autoridades e admiradores do jornalista, num lapso de distração absoluta, aguardava a chegada daquele colega de olhar incisivo, andar determinado, voz inconfundível e energia contagiante que certamente se envolveria com aquele fato social de corpo e alma, não fosse ele a vítima. Quando caí em mim novamente, refleti por algum tempo que, por diversas vezes, durante as coletivas, era nele que eu me inspirava para vencer a inibição e cobrar das autoridades, com a firmeza necessária, as respostas que a sociedade tanto deseja. Eram suas perguntas contundentes que geralmente abriam as entrevistas coletivas.

Mas hoje prefiro acreditar que não morremos na madrugada de sábado, mas despertamos. Despertamos para a necessidade de unir forças, quando desejarmos acelerar as mudanças. Despertamos para a urgência em modificar o quadro social da nossa cidade e de nosso país. Despertamos para a necessidade de fortalecer nossas instituições sociais, eliminando do seu seio os embriões de todos os problemas sociais: o orgulho, o egoísmo e a vaidade. Despertamos, mais uma vez, para a busca, necessária e ininterrupta, pela justiça. E despertamos sempre que algum evento chegue e balance a nossa acomodação.

Acredito que, se esse despertar trouxer bons frutos para a nossa cidade e sociedade, de onde o Rodrigo estiver, certamente se alegrará, pois, conforme a sábia observação do filósofo francês Lèon Denis: “Um povo não é grande, um povo não se eleva senão pelo trabalho, pelo culto da justiça e da verdade”. E disso Rodrigo Neto sabia bem.

 

*Thaís Dutra é jornalista, formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), e estudante de Direito, na Faculdade de Direito de Ipatinga (Fadipa)

 

*Arte de Mauro César, o Maurão

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Sobre palpitandoocotidiano

Sou jornalista, com pós em empreendedorismo e marketing.
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